O voto dividido em família e a farsa que todo mundo finge acreditar

A dúvida que fica é ainda mais provocadora: os políticos caem nessa encenação ou apenas fingem cair? Porque é difícil imaginar que, depois de tantas eleições, alguém ainda se iluda com essa matemática criativa do voto familiar dividido. Talvez seja mais confortável fingir acreditar — afinal, o jogo segue, e as conveniências também
O voto dividido em família e a farsa que todo mundo finge acreditar

Neste ano eleitoral, uma prática antiga ganhou contornos ainda mais escancarados: o chamado voto dividido dentro das famílias. Pelo menos no discurso. Na prática, a história costuma ser outra.

O voto dividido, em tese, seria a expressão máxima da democracia doméstica. Pai vota em um candidato, filho em outro, a esposa em um terceiro. Cada um com sua consciência, sua análise e sua independência política. Bonito no papel. Republicano no discurso. Quase pedagógico.

Mas sejamos sinceros: alguém realmente acredita que esses votos são tão divididos assim? A experiência política ensina que, muitas vezes, o enredo é outro. A família “divide” os votos estrategicamente, espalha promessas, amplia o leque de apostas e, no fim, quem ganha puxa o resto.

A dúvida que fica é ainda mais provocadora: os políticos caem nessa encenação ou apenas fingem cair? Porque é difícil imaginar que, depois de tantas eleições, alguém ainda se iluda com essa matemática criativa do voto familiar dividido. Talvez seja mais confortável fingir acreditar — afinal, o jogo segue, e as conveniências também.

Houve um tempo em que o voto dividido dentro das famílias era resultado de brigas feias, discussões acaloradas e divergências políticas reais. A mesa do almoço virava palanque e o clima ficava insustentável. Hoje, curiosamente, não é mais assim. A divisão deixou de ser conflito e passou a ser estratégia. É um voto dividido amistoso, discreto, feito em sussurros ao pé do ouvido. A lógica é simples e nada republicana: vamos ganhar dos dois lados.

Nesse cenário, cabe uma pergunta incômoda: o voto consciente ainda existe? Ou foi substituído por um grande balcão de negociatas? Fala-se pouco em políticas públicas, quase nada no povo, e muito em vantagens individuais.

Há algum tempo, lideranças surgiam defendendo bandeiras, levantando pautas coletivas, representando comunidades e apresentando ideias. Hoje, o ideal parece ser apenas um: a vantagem que eu vou tirar — e o resto que exploda. O mais curioso é que, atualmente, qualquer um que consiga juntar meia dúzia de votos já se autoproclama liderança. É um espetáculo curioso, quase cômico, para não dizer uma verdadeira pornô chanchada política, marcado por encenação, oportunismo e baixo nível. E o pior é que todos nós já conhecemos o final desse filme, não é mesmo?

Resta saber até quando esse teatro seguirá em cartaz — e quantos ainda fingirão não enxergar o óbvio. A política no Brasil, que nunca foi exatamente um exemplo de virtude, parece ter chegado a um de seus momentos mais baixos. O ambiente é sufocante, empobrecido de ideias, marcado pela mesquinhez, pela leviandade e por práticas que beiram o grotesco.

E a pergunta inevitável surge: quem é o culpado? Talvez todos nós. Pela omissão, pela conveniência, pelo silêncio confortável ou pela troca fácil de princípios por favores.

As gerações futuras, essas sim, pagarão um preço altíssimo por essa política prostituída, esvaziada de valores, tratada como mercadoria barata. Quando a política perde a dignidade, quem perde de verdade é a sociedade — e essa conta, infelizmente, não vence agora, mas no futuro.

Por Caliel Conrado

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