Na novela “Vale Tudo”, exibida há mais de 30 anos, o público brasileiro sentia um pavor e um ódio visceral pela personagem Odete Roitman, na época, interpretada pela atriz Beatriz Segal. Odete era a personificação do mal, da frieza e da falta de caráter. Seu elitismo, seu desprezo pelas pessoas que ela julgava inferior a ela e sua busca incessante por poder e dinheiro a tornavam uma vilã a ser detestada. E o Brasil a detestava. Naquela época, a reação do público era um reflexo de uma sociedade que ainda valorizava a ética, a decência e a solidariedade, e que repudiava a arrogância e a corrupção.
Hoje, a situação é inversa. A versão mais recente da personagem, interpreta pela brilhante atriz Deborah Bloch, reflete uma realidade perturbadora. As pessoas, em vez de sentirem repulsa, parecem admirar e até torcer pela vilã. A hipervalorização do mau-caratismo se tornou uma triste constante. A justificativa? “O certo é ser como Odete.” A ideologia de que é preciso pensar apenas em si, no prazer e no dinheiro, humilhar minorias e ganhar a qualquer custo se infiltrou em nosso cotidiano. A maldade e a falta de escrúpulos, antes tão abominadas, hoje são disfarçadas de “esperteza” ou “determinação”.
Odete Roitman representa o que há de pior na elite e no ser humano: uma mulher fria, egoísta, sem escrúpulos e completamente desprovida de empatia. Ela é a personificação da inversão de caráter da nossa sociedade, onde o hedonismo, o narcisismo e a falta de caráter são a bússola moral.
Confesso, meus caros amigos e amigas ouvintes, que nunca pensei que chegaríamos a este ponto: Estamos em total decadência moral. Se antes o público se unia no ódio à vilã, hoje o que se vê é a divisão e a relativização do mal.
Ao observarmos a trajetória dessa personagem, não podemos deixar de traçar um paralelo com o que, infelizmente, se tornou comum na nossa sociedade. Hoje, o Brasil parece estar vivendo um “Vale Tudo” da vida real. A linha entre o certo e o errado se apagou. A corrupção não é mais vista como um crime hediondo, mas sim como uma “malandragem” ou, pior, como algo a ser admirado. A ética e a decência são tratadas como virtudes ultrapassadas, e os canalhas, bandidos e corruptos, que deveriam ser repudiados, são transformados em heróis e exemplos a serem seguidos.
É simplesmente inacreditável, chega a ser perplexo, como deixamos de admirar nossos verdadeiros mestres, os pensadores, os filósofos e os sociólogos que, com sua sabedoria, buscam soluções reais para os problemas do Brasil. Eles, que se dedicam a lutar por um futuro melhor, foram trocados, sem cerimônia, por mequetrefes, pilantras e idiotas que se autodenominam “influenciadores digitais”. Onde antes tínhamos vozes que nos faziam refletir sobre a nossa realidade, hoje somos bombardeados por influencers que vendem uma vida de aparências, sem conteúdo ou relevância nenhuma. Nenhum deles está contribuindo para melhorar o nosso país, apenas para encherem suas contas com uma vida de mentira e futilidades.
Infelizmente, a banalização da maldade se manifesta em todos os cantos. A música, que antes era veículo de poesia e beleza, hoje frequentemente glorifica a criminalidade, a promiscuidade e o desrespeito à mulher. O que nutre a alma, como a arte, a cultura e a solidariedade, perdeu o espaço para o que é fútil e vazio.
Não podemos ignorar a influência de grupos criminosos que avançam sobre o território, ou a audácia de políticos que, com discursos vazios, facilmente manipulam a população. A corrupção se espalha como uma praga, do topo do poder até as instâncias mais baixas, no executivo, legislativo e judiciário.
Essa realidade também se reflete na esfera religiosa, com a ascensão de “pastores-celebridades” que utilizam a fé do povo para enriquecer, deturpando os princípios básicos de espiritualidade e cuidado com o próximo.
Odete Roitman, que não tem amor pelos filhos e trata as pessoas como objetos descartáveis, é um espelho dessa decadência da nossa sociedade. Ela não é digna de defesa, e quem a defende ignora sua natureza criminosa e amoral. Defender Odete Roitman é, de certa forma, defender a corrupção, a traição e a falta de humanidade.
A grande questão que fica é: como chegamos a esse ponto? Como perdemos a nossa bússola moral e caímos em uma onda de maldade, perversidade e corrupção? A alienação do povo brasileiro parece ser a resposta. Ao invés de lutar por valores sólidos, acabamos aceitando o que é mais fácil e conveniente, transformando vilões em ídolos e permitindo que o submundo da falta de caráter se torne nossa nova realidade.
Essa realidade é mais do que lamentável; é um reflexo perturbador de um povo que, na sua maioria, não só aceitou, mas entronizou o que há de pior. O Brasil parece ter escolhido, deliberadamente, a mediocridade, a falta de ética e a ausência de moral como seus novos deuses.
Por Caliel Conrado


